Entrevista: Gustavo Scaranelo, guitarrista do Higher

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Uma das bandas surpresa para mim certamente foi o Higher. Após escutar o excelente álbum de estréia do grupo paulista, fiquei com um elevado nível de expectativa em relação aos trabalhos futuros da banda. Conforme já havia comentado aqui no Rock’N’Prosa, com a resenha do álbum (pode conferir AQUI), o Higher conseguiu entregar um álbum bastante complexo e carregado de peso. Em outras palavras, o alto padrão de técnica de composição dos músicos foi passado para a música pesada. A banda foi idealizada por Cezar Girardi e Gustavo Scaranelo, músicos bastante experientes na cena instrumental, mas que possuem grande fascínio pelo metal. Então, sobre o álbum homônimo do Higher e sobre outros assuntos relacionados à banda é que vamos prosseguir com essa conversa com o guitarrista Gustavo Scaranelo.

RNP: Desde já, muito obrigado pelo seu tempo e é sempre muito bom falar de música. Foi uma grata surpresa escutar o trabalho de vocês, como até comentei aqui no Rock’N’Prosa. Começando pela concepção do álbum, como se deu todo o processo de criação?

Gustavo Scaranelo: Tivemos um primeiro projeto, há 20 anos atrás, que não deixou registros, mas já existiam algumas composições das quais gostávamos muito. A ideia inicial era registrar essas composições, já numa fase mais madura, com maiores possibilidades e conhecimento, já que naquele momento isso não foi possível. Acabamos gostamos tanto dos primeiros registros que resolvemos continuar as gravações com novas composições, e foi aí que a maioria das músicas surgiu. A primeira música que gravamos foi The Sign, e a partir dela não paramos até que o disco fosse concluído, mas a cara do disco veio mesmo depois, com as outras composições. Acredito que o Higher, propriamente dito, nasceu a partir das composições que foram feitas para o disco.

RNP: O Higher foi formado para ser um trabalho do metal, mas vocês possuem uma formação mais ligada ao jazz. Apesar da paixão pelo metal, como a influência de outros estilos, como o jazz, se faz presente nas composições?

Gustavo: Acredito que o jazz, como estilo musical, não está presente no disco. Na verdade queríamos um disco de metal e trabalhamos todo o tempo para nos mantermos nele. Mas é claro que uma vez que você possui influências de outros gêneros, isso acaba aparecendo, não como uma colcha de retalhos, mas numa fusão que entrega um terceiro resultado, nem o jazz, nem o metal tradicional. Mas é um disco de metal e essas influências foram inevitáveis, não tínhamos isso como intenção.

RNP: O álbum homônimo de estreia da banda é bastante diversificado musicalmente, algo que curto bastante em qualquer trabalho. Com relação às composições, elas procuram seguir uma linha de estilo, por assim dizer, ou a banda prefere compor de acordo com o momento e não se prender muito?

Gustavo: Acredito que todo músico que tem um projeto autoral tem também um “feeling” muito especial para discernir aquilo que tem a cara do projeto, e aquilo que não tem. Quando compomos para o Higher estamos muito focados nessa percepção e não guardamos ideias que não nos tragam essa certeza de compatibilidade com o projeto. É difícil explicar como isso acontece, mas é muito claro pra gente. Mas nem sempre essas composições têm uma mesma aura, então de fato não existe uma prisão no processo criativo, apenas uma sensação se que algumas ideias são mais adequadas do que outras.

RNP: Falando sobre algumas músicas. Illusion foi uma das minhas favoritas do álbum. Ela conseguiu traduzir todo meu sentimento ao escutar o trabalho. Achei as melodias bem variadas, sem contar na parte técnica. Você poderia explicar o conceito dela?

Gustavo: Illusion foi uma composição que fiz quando tinha 16 anos, ainda com a banda Second Heaven. A melodia se manteve, mas o arranjo foi completamente alterado, assim como a letra. Ela fala da ilusão presente em nossa sociedade, sobretudo a de que não somos capazes de sermos melhores, grande ilusão. Quando escrevi a letra tinha uma ideia em mente, não a velha ideia de que “errar é humano”, mas a certeza de que evoluir é humano, e errar é apenas parte do processo. Não fico confortável com os meus erros, então a velha frase não me serve de muita coisa, e acredito que ela é mal empregada na maioria dos casos. Portanto, sempre gostei de pensar que sou capaz de fazer melhor, errando pelo caminho, sim, mas com a evolução como único objetivo. Se não houver um crescimento, então não tenho porque me contentar ou me inocentar de erro algum. Que bom que gostou da música!!

RNP: Outra música que chamou a atenção foi a Break the Wall, que inclusive possui um vídeo. Gostei da mistura do dedilhado com a distorção. Essa música para mim mostra mais a capacidade criativa da banda, mostra que os limites não são conhecidos para o som do Higher. Qual a ideia dessa música? Digo, tanto musicalmente (dentro da proposta da banda para a sonoridade) e conceitualmente (qual seria o muro a ser quebrado?).

Gustavo: Essa música faz parte da nova safra, ou seja, das composições que nasceram a partir do Higher. Quando compus esse som estava pensando em trazer um respiro para o disco, todos os outros arranjos estavam bastante pesados até então, novas idéias começaram a brotar. Trabalhar parte do arranjo com som limpo da guitarra me possibilitou algumas texturas que o disco ainda não tinha. O conceito por trás dessa letra é simples, o muro do qual falamos na letra é aquele muro imaginário que nos impede chegar perto de alguém que precisa de algum tipo de ajuda, muitas vezes para uma simples conversa. Não me refiro às pessoas do nosso convívio, amigos e família, isso é fácil. Mas não é tão simples se disponibilizar para ajudar um estranho, alguém que muitas vezes só precisa de algum tipo de atenção, uma conversa ou um “não” educado. Deparamos-nos, em nosso cotidiano, com uma miséria bem grande, que pinta a realidade do país, mas essas pessoas miseráveis se tornaram cenário, e nota-se uma verdadeira dificuldade em romper com essa ideia, a ideia de que existe um muro entre nossa realidade e a delas, a nossa sociedade e a delas, a nossa responsabilidade e a delas, e na verdade estamos falando da mesma coisa. É claro que todos somos fruto das nossas escolhas e que, mesmo sem muitas opções, podemos virar o jogo e transformar nossa vida, mas não é das escolhas dessas pessoas que eu estou falando, me refiro a minha escolha, e quando passo por alguém nessa situação, quando me deparo com a miséria alheia, não tenho controle ou real conhecimento das escolhas dessas pessoas, nem pretendo ter, mas devo ter sobre as minhas escolhas perante elas. É disso que se trata, da qualidade das respostas que temos às diversas e imprevisíveis situações da vida real.

RNP: As músicas são bastante complexas. Na verdade, isso não apresenta dificuldades para músicos experientes como vocês, mas, gostaria de saber como as músicas funcionam no show. A banda consegue passar a mesma energia do álbum para o público?

Gustavo: Bom, não vou responder com minhas palavras, mas com os comentários dos fãs ao fim dos shows. Geralmente somos procurados após o palco e muito frequentemente as pessoas nos dizem que o show carrega muito mais energia do que o disco. Fiquei surpreso a primeira vez que ouvi isso, mas, praticamente em todo show, temos várias pessoas nos dizendo o mesmo. Então, hoje eu acredito nisso!

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Higher (da esquerda para a direita): Pedro Resende, Gustavo Scaranelo, Felipe Hervoso, Will Costa e Cezar Girardi.

RNP: Voltando aos primórdios do Higher. Você começou um projeto chamado Second Heaven, em 1995, sendo que não deixou registros. O que você trouxe desse projeto para o que vemos atualmente no Higher?

Gustavo: Além de algumas composições (Illusion, The Sign, Like the Wind e Time to Change) uma série de lições que aquela experiência nos trouxe. Uma banda não é uma simples e despretensiosa reunião de amigos, é um trabalho, é um sonho, é uma chance, é uma história, é uma conquista, enfim, carrega uma carga emocional muito forte e isso tem que ser utilizado da forma correta. Essa energia pode levar uma banda ao topo, ou destruir o convívio entre todos do grupo, depende das escolhas e da entrega. Acredito que o projeto anterior já nos possibilitou aprendizados suficientes para não cometermos alguns erros com o Higher.

RNP: Falando da gravação do álbum. Vocês escalaram Andrés Zuñiga (no baixo) e Pedro Resende (na bateria) para completar a formação. Na ocasião, eles chegaram a contribuir com as composições ou a direção que a banda tomou já estava pré-definida?

Gustavo: As composições e arranjos já estavam definidos, eles contribuíram criativamente através de suas execuções. Mas a concepção já estava pronta, só encontramos as pessoas certas naquele momento.

RNP: Atualmente a banda conta ainda com o Felipe Hervoso (na guitarra), que, pelo que pude ver foi um aluno seu na escola de música. Ele não chegou a participar das gravações, mas ele trouxe alguma característica para a banda que não está presente no álbum? Digo isso, no sentido da execução das músicas.

Gustavo: O disco já estava gravado quando o Felipe entrou para o Higher, mas o disco foi todo concebido para duas guitarras e necessidade de termos mais um guitarrista nos palcos nos levou até o Felipe, e portanto não ocasionou em alteração dos arranjos para as execuções ao vivo. Mas o segundo disco, acredito, terá vários elementos de influência deles todos. Somos muitos felizes por ter Pedro Rezende, Felipe Hervoso e Will Costa com a gente!

RNP: O álbum Higher foi lançado em 2014, se não me engano. Vocês já estão trabalhando um novo álbum? Ou algum outro lançamento? Quais os projetos futuros da banda que vocês poderiam adiantar?

Gustavo: Estamos trabalhando no segundo disco. Mas, assim como o primeiro, esse disco não será feito às pressas, queremos acreditar em cada nota antes de fecharmos o processo criativo do disco e concluirmos as gravações. 2017 será um ano com novidades!

RNP: Muito obrigado pelo seu tempo, Gustavo, e por nos dar a oportunidade de explorar mais o trabalho de vocês. Deixo aqui o espaço para você.

Gustavo: Agradeço imensamente a oportunidade de falar sobre o projeto e também pelo interesse de vocês em nosso trabalho! Agradeço também a todos que estão nos lendo, visitem o nosso site (www.higherband.com) para maiores informações. Aproveito o espaço para martelar numa tecla já desgastada do meu discurso (risos), e dizer para as pessoas que gostam de música que o som autoral é o único meio pelo qual um gênero pode continuar existindo. As novas bandas levam o bastão adiante e sem isso o cenário underground congelaria e perderia força. O apoio do público é imprescindível, e com isso não quero dizer que você deva sair de sua casa e assistir ao show de um projeto autoral que você não gosta, somente para apoiá-los, isso não faria sentido. A ideia é dar a chance às bandas, simplesmente ouvindo o trabalho delas, e caso goste, o resto vai acontecer naturalmente! É esperado que um fã de metal queira ouvir as novidades do meio, isso basta, o resto virá! Grande abraço a todos!!

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